Sou Diego Esteves, artista, professor e pesquisador – mas destaco que sou um estudante, e que é disso que se trata. Farei aqui uma breve apresentação, sob uma perspectiva da minha história pessoal, tendo em vista aquilo que ela diz respeito à história social, que constituem saberes implicados nestes estudos e experimentações transversais. Pretendo introduzir um sentido acerca das relações entre esta vida vivida até aqui, e como chegamos nesta proposta de estudos e experimentações transversais.
Aos nove anos de idade iniciei minhas práticas no Taekwondo, me tornando professor aos dezesseis anos. Do interesse em aprofundar meus estudos sobre o corpo em movimento, bem como os aspectos educacionais com os quais vinha me relacionando no caminho das artes marciais, passei a cursar Educação Física (UNISC). Neste período, entre 2002 e 2006, desde o primeiro semestre do curso, então aos 18 anos de idade, integrei o Corpo de Dança daquela Universidade, e, neste contexto, me envolvi com o circo, a dança, o teatro e a performance.
Após concluir este curso, passei a residir em Porto Alegre, em 2007, para seguir me dedicando aos estudos e experimentações com arte e educação. Nesta cidade participei de grupos, coletivos e instituições, bem como segui minha formação acadêmica. Destaco, deste período, a criação, em 2009, do coletivo chamado Núcleo de Estudos e Experimentações com Circo e Transversalidades, depois Núcleo de Experimentações Cênicas e Transversalidades, NECITRA; a Canto – Cultura e Arte, em 2010, cujo a concepção era a de ser um canto, um espaço de produção cultural entre Arte e Educação; formação no Grupo Experimental de Dança, em 2010, da Prefeitura de Porto Alegre; participação no espetáculo de dança para crianças, Guia improvável para corpos mutantes, dirigido por Airton Tomazonni, entre 2012 e 2016; a criação do Unoego, projeto em parceria com Bruno Angelo, de criações transmídia entre textos, músicas, vídeos e/em performances.
Em 2017 iniciei o mestrado e em 2020 o doutorado em Educação (UFRGS), também cursando Licenciatura em História (UFPel/EaD), processos concluídos em 2025. Este percurso individual transitou por estudos de perspectivas do extremo oriente, inicialmente com a arte marcial, depois com leituras e práticas do budismo, a partir de 2009, e de uma formação em Yoga, no Ananda Marga, em 2017.
A prática artística e educacional me levou ao estudo da filosofia – sobretudo das Filosofias da Diferença –, e, do interesse em compreender o conhecimento e a cultura sobre uma perspectiva do e no tempo, aos estudos da História. Nestes, a investigação sobre o corpo em processo artístico e educacional, ou artístico-educacional, sempre foi priorizado: o corpo em cena, o corpo em aula, o corpo que escreve, que conversa, que inventa, que performa; o corpo no tempo e nos espaços.
Estes estudos e experimentações transversais aqui proposto resgatam, em sua concepção, aquilo que propus ao NECITRA, isto é, a ênfase ao estudo e experimentação, considerando a transversalidade entre saberes e práticas, o que significa não subjugar o processo artístico pela obra; não suprimir o tempo contemplativo, e por vezes errático da invenção, pela métrica de um “mercado da arte” ou da “indústria cultural”. Da mesma maneira, na educação, se trata de enfatizar o estudo não como um período a ser superado, que entende o processo de aprendizado antecedendo a chegada à formação – e esta submetida ao “mercado de trabalho”. Contra a ideia dominante de uma economia de mercado, de uma produção submetida ao consumo, proponho um retorno às práticas, como aquelas do budismo e do yoga, ou da arte marcial, ou da filosofia antiga, entendida como modo de viver. Trata-se mais de uma economia dos saberes e práticas, uma economia da processualidade – que se embasa em três sofias, para estes estudos em aula: metodosofia, ecosofia e tecnosofia.
Assim, para estas investigações, definino os processos de estudos e experimentações sobre o princípio da transversalidade, que contemplam uma circularidade, contra a linearidade das ideias de desenvolvimento e progresso, que subjugam aquilo que não é humano, transformando existências em recurso. Mais do que isso, nos subjuga ao princípio de recursos humanos — e isso diz respeito, também, a Educação, em recursos humanos.
Com efeito, estes encontros de estudos buscam contemplat uma história cultural, das ideias, do conhecimento, de práticas e, compondo com elas, processos de experimentação: exercitando, assim, a sensibilidade e as compreensões, repensando e reimaginando a si, ao coletivo, a vida e o mundo.
Sou, neste processo, um estudante que compartilha aquilo que pesquisa, que experimenta, que compõe: que credita a este compartilhamento a potencialização de vidas em coletivo, que acredita em um processo de conscientização e de produção de modos de vida mais potenciais para si e para a sociedade e, sobretudo, para um mundo aquém e além do humano — mundo no qual este se inclui em reciprocidades.