Como funciona

Nesta seção abordamos aspectos gerais da produção destes estudos em textos e aulas, a partir das concepções de metodosofia, ecosofia e tecnosofia, bem como fizemos um apontamento para a leitura do conjunto textual.

Metodosofia

Em conversa com a proposição de Sandra Corazza, assumimos que o processo ora em curso, de estudo e compartilhamento em aula, bem como os encontros para pesquisa e criação (ambos sobre um plano de pesquisas e escritas em processo), operam por uma metodosofia: isto é, ao invés de uma pressuposta metodologia que guiaria o processo, a sofia, saber que substitui o logos, razão, diz respeito ao processo em si, experimentado e em experimentação.

Em síntese, procedemos por textos em contextos, assim subcompostos em quatro conjuntos: “dos pressupostos”, “das produções e performances”, “ética, estética e política” e “práticas teóricas”, num total de 16 conjutos de textos e aulas.

Esta metodosofia diz respeito à experimentação com e sobre o estudo, aos exercícios de pensamento, com sensibilidade, imaginação e rememoração; diz respeito também aos usos tecnológicos no contexto de conversas entre escritas e leituras, em ações individuais e em aulas, no coletivo.

Ecosofia

Em conversa com a proposição de Félix Guattari, consideramos três ecologias em interação: a corporal e individual – que ele define como mental –, a social e a ambiental. A política desta concepção nos orienta para uma atitude atenta às implicações de pequenos gestos, palavras e ações, na interação entre o micro e o macro – e vice-versa. A interlocução entre uma ecosofia e uma metodosofia nos leva a imaginar três metodologias: o caminho individual, na escrita e na leitura, o social, na aula e encontros de pesquisa, e o ambiental, naquilo do que é feito, e no que se desfaz, estes encontros e desencontros – a natureza incerta da cultura, a perenidade da vida e sua paradoxal finitude. Esta interlocução, agenciamento e criação, de uma espécie de “ecometodosofia”, nos leva à concepção de tecnosofia.

Tecnosofia

Resistente aos avatares dominantes do imperialismo, da colonização ao capitalismo tardio, de logos, razão, desenvolvimento e progresso, operamos via uma tecnosofia. Este saber, técnico, é antes artístico do que científico, e parte da noção primeva de artes, ou ars, como uma maneira de fazer, próxima ao sentido de techné. Esta tecnosofia, portanto, aceita a errância no percurso, um estado de jogo e improvisação.

Ela investe num aprendizado cotidiano com aquilo que é pregresso, cultural, contra a saga infinita do progresso e do desenvolvimento de novidades e bens de consumo.

Tecnosofia que, então, lida com cultivos e não com consumos, que experimenta e compõe, como Tecnologia da experimentação e composição, antes do que de informar e comunicar, com Tecnologias da Informação e Comunicação. Mas, avessos às dicotomias – em parte inevitáveis, pois implicadas na própria língua –, entendemos a confluência entre os dispositivos das tecnologias digitais e aqueles das tecnologias corporais.

Esta produção aqui performada é, com efeito, parte de um movimento de implicação entre textos, aulas, performances, espetáculos e vida cotidiana. Esta implicação se replica e se desdobra. A tecnosofia é um modo de fazer funcionar, com táticas por vezes precárias, outras mais elaboradas e estratégicas, encontros e criações, enquanto estudos e experimentações transversais.

Nota sobre o conjunto das aulas

A compreensão de estudos e experimentações transversais aqui adotada, que diz respeito a um engendramento entre educação e arte, é contemplada na última subseção, “Arte, um modo de pesquisar”, que compõe a seção “Práticas teóricas” – toda ela importante, em verdade. Desta maneira, os últimos textos antecipam os primeiros, produzindo uma circularidade que se opõe à ideia de um progresso retilíneo. Em síntese, está última seção aborda práticas, implicadas em teorias, que podemos entender como cuidado de si ou tecnologias de si. Outrossim, este si é parte de um todo, com ele se compõe, nele produz e se reproduz. Assim entendido, essa processualidade, em uma educação que cria e uma arte que educa, é o plano de fundo destes estudos e experimentações transversais.

Noutros termos, trata-se de entender a educação como um fim em si mesmo, não como um meio de formação para uma ação no futuro: a educação é meio de invenção no presente, de produção de si e de mundos, uma arte de viver – e é por isso que importa para o porvir, é processo e não promessa. Este princípio permeia todo o estudo: do início ao fim – e ao reinício – do conjunto das aulas.

Em tempo, importa destacar, sobre a concepção que guiou a produção destes “textos-aula”, seu modo e estilo, que se tratarem de questões tramadas sobre um fundo problemático, abordados anteriormente por vias textuais, cênicas e de docência, isto é, em textos já publicados, aulas realizadas e espetáculos apresentados (que podem ser analisados ao percorrer este site). Este processo é aqui retomado no tempo e no espaço, como história de uma pesquisa que se faz e se partilha: os encontros ocorrem em paralelo às escritas de novos textos, ensaios, artigos, elaborados com a mesma materialidade daquilo que é elaborado nos encontros coletivos.

Desta maneira, neste site, para fomentar os encontros e os textos do plano de pesquisa, procedemos por escritas breves, a partir da memória e da imaginação, instituindo um percurso de pesquisa entre passado e futuro. Em um segundo momento, lendo relendo textos, criamos um inventário de citações que conversam com o que estamos propondo, indicando referências de estudos.

O processo todo diz respeito a uma transcriação e o exercício de composição de um todo coerente e singular, sob nosso domínio de pensamento em perspectiva, e que convida cada estudante a produzir seu próprio caminho.